Paulo Coelho

Paulo Coelho

Course work for Dramaturgy Seminar Opinão 70 1970

E de repente a gente olha para aqueles gastos livros de historia e fica pensando o que se esconde entre as linhas, porque tanta gente virou efígie de dinheiro e de outros nem se ouviu mais falar.

Joao Cândido era apenas um cabo, era um homem como todos os homens de seu tempo, mas um belo dia se viu cercado, tinha que parar aquilo tudo, como Antonio Conselheiro pensou também antes do Massacre de Canudos, como deve ter pensado o governador do Ceara no momento em que os jagunços do Padre Cicero se aproximavam de seu palácio para queima-lo vivo.

E no momento em que estes homens começaram a pensar um passado todo se transformou, e era como se a historia fosse um rio correndo em direção ao mar. E a revolta de Chibata explode como um dos milhares de obstáculos vencidos, passados ... e esquecidos.

Mas um dia a gente sente a historia verdadeira aflorar, a historia dos mártires desconhecidos, a crueldade em nome da justiça, dos movimentos esporádicos que pediam um minuto, um minuto de eternidade. Então a gente tenta, na linguagem mais humana possível, meter o dedo nas feridas cicatrizadas prematuramente, e contar o que aconteceu a muito tempo, e recompor as pecas daquele exato instante de jogo, quando ninguém apostava porque a derrota era a única jogada.

Joao Cândido perdeu, ganhou, jogou, escapou de morrer fuzilado para vender peixe na praça Quinze. E meu avo quando me contava historias bonitas se esquecia desta, talvez por ter durado apenas 3 dias, talvez por achar igual a milhares de outras.

Ate que um dia - não foi, Joao Cândido? - a gente se encontrou no Entreposto de Pesca.

Details

Language: Portuguese Publication Date: 1970

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